Psi, quê?

reflexões em saúde mental

PRÓLOGO 

Durante a faculdade, ouvi falar de uma forma totalmente inusitada de realizar e pensar a medicina, que à época se mostrava de maneira tão rígida, fria e protocolar: a medicina narrativa.

Esta foi uma abordagem inovadora proposta pela médica britânica Rita Charon, uma defensora de que para alcançarmos a singularidade e a prática médica orientada pela ética e pelo cuidado devemos exercitar a autorreflexão proporcionada pela construção literária. 

Isso me chamou a atenção à época, e hoje me parece óbvio que fazer medicina diz respeito, em primeiro lugar, sobre contar histórias – diga-se de passagem ótimas narrativas, heróicas e trágicas, com roteiros implacáveis em que os personagens são a vida e tudo o que a envolve. Portanto, falar sobre cuidado e exercer a saúde de forma humanizada envolve admitirmos o drama que paira sobre o nosso cotidiano e reconhecermos o poder das narrativas. 

Nesse sentido, trabalhar na saúde, e em especial na saúde mental é, entre muitas coisas, estar absorto em encontros de trajetórias que se entrelaçam para depois desvelar nós, destruir muros e ensaiar novos rumos, em busca de uma melhora clínica e da elaboração de um suporte em conjunto.

Essa relação irá discorrer a partir de diversas interações, verbais e não verbais, e irá depender de diversas instâncias, em uma intrincada cooperação entre diversos agentes. Para além do ato médico, o trabalho em equipe e a interdisciplinaridade são a base que irá permitir a passagem do individual para o coletivo, na construção de uma base sólida que irá fundar esse suporte e ajudar a pensar sobre as possibilidades e os caminhos a serem tomados.

Isso se dará de forma uníssona, mas unindo diversas vozes em diferentes timbres e entonações, formulando uma rede com diversos agentes, sobrepostos por pensamentos que divergem, mas posicionamentos que buscam convergir em cooperação.

Na tentativa de me lançar nesta teia e ajudar a tecer as suas adjacências, tentarei, em uma abordagem breve, contar essa que foi a história de um menino médico um tanto perdido que encontrou num lugar e numa passagem tão diminuta um lampejo que aponta para a imensidão do ato clínico na rede de atenção psicossocial substitutiva. 

  1. Terê – em contato com a RAPS de forma mais direta.

Em uma manhã de maio, início do meu estágio no CERSAM Teresópolis pelas próximas terças-feiras, deparo-me com um ambiente acolhedor, residentes gentis, usuários cordiais e profissionais competentes.

É um novo cenário para mim, que estou mais retraído, advindo de ambientes hospitalares com muros de concreto brancos e contraditoriamente quase sem vida, tão diferentes daquele lugar onde está enraizada a rede substitutiva em atenção à saúde mental. 

Ouço expressões e termos como ‘ir e vir’ e ‘sujeito’, que de cara me chamam a atenção e colocam em foco a abordagem que terei a oportunidade de vivenciar a partir dali, juntamente a momentos descontraídos — uma energia de um local de trabalho com o qual me identifico.

A proposta é que eu transite entre um estágio de observador, e tente apresentar ao final algo que possa agregar à equipe, assim como atue ativamente, a partir do acolhimento de usuários e da tentativa de construção de alguns casos. 

Refletindo hoje sobre esse marco em minha formação, acolho a perspectiva de que foi um privilégio poder habitar de forma itinerante neste serviço que é um reflexo de anos de políticas públicas e esforço coletivo para a implementação de um cuidado efetivo, humano e artesanal feito em território.

Para contextualizar, percebi que coincidentemente, próximo ao início dessa minha travessia, no dia 6 de abril, foi feita a celebração dos 25 anos da Lei Paulo Delgado, o registro institucional que simbolizou a luta pela reforma psiquiátrica e o movimento sanitarista brasileiro. 

Neste momento do texto é válido refletir sobre a importância do resgate histórico, naquela célebre frase do filósofo hispano-americano George Santayana de que quem não sabe o passado está fadado a repeti-lo no futuro.

No Brasil, houve um período em que a saúde não era direito de todos, mas privilégio de poucos, e aqueles mais desafortunados – a maior parte da população até os dias atuais – estavam largados à própria sorte ou dependendo de caridade e beneficência. 

A história dos CAPS e da RAPS de Betim se entrelaça com a própria criação do Sistema Único de Saúde e os seus princípios que tanto conhecemos hoje, assim como a da redemocratização no Brasil dos anos 80. Foi necessária luta para a mudança de uma sociedade excludente para que às margens pudessem emergir as pessoas mais pobres, em sua maioria negras — dentre elas estavam os ‘loucos’ punidos, humilhados e torturados nos manicômios.

Como um rio que aflui para depois irromper em forma de liberdade e direito de ir e vir, surge a possibilidade da existência e da asseguração dos direitos das pessoas com transtornos mentais, e é dado início a um longo percurso que ainda não está totalmente posto ou consolidado.

Hoje, os rios afluentes estão envoltos e ameaçados pelas barragens de políticas atuais, como por exemplo as diretivas que permitem a existência das chamadas de Comunidades Terapêuticas, entidades em tese bem intencionadas, mas que na prática buscam reproduzir e retomar aquilo que fora deposto outrora. 

É preciso reacender o espírito de luta pela garantia de direitos, promovendo a construção, a consolidação e a disseminação de políticas públicas voltadas ao cuidado em território.

Esse caminho configura-se como um processo histórico em permanente desenvolvimento, uma narrativa que segue sendo escrita.

“Não estamos alegres, é certo, mas também por que razão haveríamos de ficar tristes? O mar da história é agitado. As ameaças e as guerras havemos de atravessá-las, rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.” — Vladimir Maiakovski

2. SÉRGIO E GUSTAVO → a ética do cuidado.

Durante a minha curta passagem, tive a oportunidade de conhecer alguns casos que irão marcar a minha formação em termos do sentimento em que buscarei nutrir ao atuar em rede.

Sentimento que se resume ao ímpeto de dar lugar ao que antes não fora possível, dar voz ao que não era audível e contornar as nuances das narrativas que ainda não puderam ser ilustradas.

Talvez, essa seja a minha atribuição e contribuição ao termo ‘acolhimento’, local de escuta que tem o poder de impulsionar os preâmbulos esquecidos.

Dois casos em especial perpassam a impressão de como aqueles que não têm lugar, permeados por ambientes pouco acolhedores, ou que não conseguem explorar as suas potências enquanto indivíduos, poderiam vir a desenvolver novas formas de existir.

Essas novas formas devem, muitas vezes num processo silencioso, ser lapidadas de forma autônoma, mas com o apoio em liberdade que irá permitir que eles próprios se reconheçam em sua autonomia e percebam a sua capacidade de encontrar um caminho. 

Falo de dois jovens homens negros, vivendo em famílias de baixa renda, sem escolaridade completa, sem vínculos empregatícios formais, em contextos familiares que funcionam de forma a gerar algum sentimento de exclusão naquele que deveria ser o seu porto seguro.

Coincidentemente, demonstram não pertencimento ao contexto em que vivem, problemas com a produção do discurso e a linguagem, e estão em investigação diagnóstica após um primeiro episódio psicótico.

 Infelizmente, a vivência em período prévio ou atual da violência no ambiente domiciliar também é algo que possuem em comum e suas opções de lazer no momento se restringem a conteúdos online, não possuem círculos sociais ou vínculos perenes com pessoas da mesma idade. Porém, em contraste com o passado e os dados sociodemográficos que os assemelham, possuem sonhos e perspectivas que os tornam únicos. 

Sérgio, um menino tímido, quando perguntado certa vez sobre os 3 desejos que faria ao gênio da lâmpada, relatou que gostaria de um carro zero, uma companheira e uma casa só sua.

Gustavo, quando indagado sobre os objetivos para o futuro, gostaria de não viver com o medo que o prejudica diariamente e de tirar a carteira de motorista, apontando também para o desejo de um futuro de maior autonomia e da construção de um senso de identidade. 

Podemos simplificar a situação da seguinte forma: por um lado, pessoas com características e diagnósticos que muitas vezes as empurram ao isolamento da sociedade, com transtornos que fragilizam os seus laços sociais entre amigos, instituições e familiares; por outro, podemos ver evidentes potencialidades, necessidade de suporte e um desejo interno pela mudança e pela emancipação. 

Qual será o papel que o CERSAM poderá desempenhar em suas vidas? Será suficiente providenciar-lhes um local onde possam transitar livremente? Podem usufruir de novos vínculos dentro desse espaço? Quais são os seus limites, entraves e dificuldades?

3. AS FERRAMENTAS 

Dentro de uma rede, o CERSAM deverá ser um local em que a criatividade prepondera para lançar mão de diversas ferramentas de cuidado, adequadas ao contexto específico e ao que há de singular em cada indivíduo, buscando a preservação da qualidade de vida e da autonomia das pessoas com transtorno mental.

Para tanto, diversos serviços, profissionais e estratégias são necessários, com uma articulação contínua e uma flexibilidade quase superelástica.

Retomando aqui a narrativa em primeira pessoa, observei que essa fluidez irá gerar um processo inventivo e sempre dinâmico, em interlocução entre diversas áreas do saber, de forma que não haja uma hierarquia sistematizada institucionalmente.

Com isso, certamente existirá um contraste entre os ambientes e cenários previamente vivenciados na minha residência, já que este não é um processo simples ou um objetivo fácil de se alcançar frente à perseveração cultural em determinados contextos da superioridade do saber biomédico. 

Para mim fica nítido nesta comparação de práticas institucionais o fato de que cuidar de um indivíduo não se resume a discorrer exaustivamente sobre diagnósticos ou medidas medicamentosas/intervencionistas de forma a isso se tornar o único foco.

Temos, de forma mais acertada para a realização de uma clínica ampliada, uma abordagem multifocal, sendo o diagnóstico psiquiátrico e a medicação mais uma de muitas tecnologias disponíveis, dentre as quais me chamam atenção as ‘tecnologias humanas’. 

A título de exemplo e ilustração das tecnologias às quais me refiro, aqui é válido resgatar à memória a personalidade de Nise da Silveira, médica alagoana que revolucionou a prática da psiquiatria no Brasil a partir da abordagem humanizada baseada no afeto, na escuta e na arte.

Esses foram elementos, para o meu encanto e alívio, sempre presentes na minha passagem pelo CERSAM Terê! É incrível como a presença desses elementos no cotidiano humaniza o ambiente e não somente os usuários, mas também os profissionais que passam a circular pelo espaço de forma natural, espontânea e leve. Com isso, é fácil entender no CERSAM Teresópolis atualmente as aventuras que são necessárias na prática para a oferta desse cuidado pressuposto, pelas quais se cristalizam os conceitos fundamentados. 

Em um dia a dia imprevisível e desafiador, todos parecem conseguir desempenhar papéis que tornam possível a funcionalidade a partir de ferramentas inovadoras. Por exemplo, a prática das saídas conjuntas com os usuários para atividades fora do serviço, reforçando a inexistência de muros tanto concretos, quanto imaginários.

Também, as discussões em equipe e as oficinas que reforçam a primazia da interdisciplinaridade e dessa interlocução na prática diária. 

CONCLUSÃO – Terênzo (Teresópolis + Enzo)

Como estou num momento da vida que sei que posso falar com total propriedade apenas de mim, confesso que estava em um momento mais cansado, precisando de maior dinâmica, cores e de um ambiente de ar mais afetuoso.

E foi isso que esse período no CERSAM me providenciou – um respiro e o alcance à superfície de um mar tão denso e de marés tão imprevisíveis que é atuar profissionalmente na saúde mental.

 Deixo aqui os meus agradecimentos a todos pela acolhida, pelos sorrisos e gestos, e faço menção de alguns que marcaram de forma ímpar esse período, deixando-o mais leve.

Ao Ênio, que de forma tão lúcida, ao mesmo tempo que forte e impositiva na medida certa veio me convidar a  viver esta experiência; às R’s (residentes e referências técnicas) incríveis com quem tive o prazer de dividir os dias aqui – em especial pelas portas abertas para os momentos de cafezinho e risadas.

Saio daqui alguém mais leve, mas ao mesmo tempo engajado e fortalecido para ir em busca daquilo que acredito. Obrigado! 🙂  prazer de dividir os dias aqui – em especial pelas portas abertas para os momentos de cafezinho e risadas.Saio daqui alguém mais leve, mas ao mesmo tempo engajado e fortalecido para ir em busca daquilo que acredito. Obrigado! 🙂