Adentrar o mundo da saúde mental é lidar com o indecifrável. Atender pessoas com demandas ou diagnósticos psiquiátricos muitas vezes é entender o que há de indomávelno comportamento humano e que a loucura pode ser uma nova forma de se adaptar à realidade. Mas, claro, é necessária cautela, para não cairmos na armadilha de menosprezar as dimensões do sofrimento e a necessidade do cuidado adequado, reconhecendo situações em que é necessário intervir de forma assertiva.
Georges Canguilhem, em seu livro avança e pontuasobre a crítica inerenteà produção dos conceitos de normalidade em saúde, refletindo sobre como sua formação é um processo polêmico e dinâmico, interligado a práticas e valores sociais, e não apenas a descobertas objetivas.Ainda, Canguilhem defende que a saúde é definida como a capacidade de instituir novas normas em situações novas, de tolerar infrações à norma habitual e de ultrapassar a norma que define o normal momentâneo.
Essa avaliação dimensional, que leve em consideração o indivíduo, o seu contexto e parâmetros intercambiáveis a cada caso, parece essencial para o cuidado possível aqui colocado. No entanto, infelizmente, essa abordagem por vezes é menosprezada, devido ao enfoque excessivo na operacionalização diagnóstica. Em parte, isso se deve à criação dos manuais diagnósticos ‘ateóricos’ publicados nas últimas décadas. Nesse contexto, dizer que o DSM(Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), apesar de limitado, é a melhor ferramenta que temos, trata-se de uma falácia capciosa para resignar os desavisados. O textode Steven C. Hayesfaz os apontamentos necessários para entendermos essa trama, a qual já está engendrada na prática clínica e precisa de uma resposta à altura, em vistas à criar um novo terreno de prática e vieses alternativos aos colocados.
O livro traz que há um consenso, inclusive entre os formuladores dos critérios do DSM, de que a abordagem atual atingiu um “beco sem saída” e é improvável que leve a uma compreensão mais profunda ou tratamentos mais eficazes. A ideia de que síndromes (coleções de sinais e sintomas) levariam a uma compreensão funcional profunda da psicopatologia se mostrou falha, e a resignação é um impasse para o aprimoramento e ampliação dimensional necessárias.
Precisamos pensar no equilíbrio para escapar de uma prática clínica excessivamente rígida, sem perder de vista a complexidade do tema ao qual estamos debruçados. Sobrepõe-se a isso a necessidade de múltiplas visões para atendermos as diversas demandas e necessidades daqueles que, em seu sofrimento, procuram-nos.
Afinal, navegar por águas tempestuosas é difícil, mas como o dito popular nos ensina: “Mar calmo nunca fez bom marinheiro”. Isso nunca foi ignorado pela professora alagoana que se tornou um pilar fortificado em direção à humanização do cuidado em saúde mental no Brasil.
“É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade” Nise da Silveira